efeitos de encontros
muitos, inesperados, surpreendentes, imprevisíveis, marcantes
imagens condensam…
Um amigo me perguntou qual o sentimento que tive quando tirei esta foto:
Esta delícia de questão me exigiu rememorar o momento vivido e, como consequência quase inevitável, rememorar como tenho entendido a ação de fotografar.
Essa foto tem uma história e percebo que isto tem muita influência na minha relação com a imagem: gostar das minhas fotos passa necessariamente pelos momentos nos quais elas foram clicadas.
Estava trabalhando no Acre, o que por si só já era algo especial. Conhecendo pessoas, realidades diferentes. E eis que em uma tarde, fui convidado para visitar telecentros na periferia de Rio Branco com pessoas do governo local e um amigo que também fotografa.
Visitamos alguns espaços e, por fim, chegamos a esse centro comunitário. Local de vida especial. O telecentro ocupava uma sala de uma espécie de clube no qual algumas pessoas passavam o dia, fazendo o uso do espaço e do tempo com atividades diversas que a estrutura do local permitia.
O centro era tão apropriado pelas pessoas que ali estavam que os olhares não cessavam de nos lembrar que éramos, ali, estrangeiros. Com a câmera na mão, passeava pelas situações vislumbrando fotos que não conseguia tirar por conta da inibição que os olhares fortes, insistentemente, me causavam.
Foi então que algumas crianças fizeram o que só elas podem fazer: mover-se pela curiosidade ingênua por sobre qualquer situação social de constrangimento instituída. Aproximaram-se, apontaram para as câmeras e perguntaram se poderíamos tirar fotos delas. Perceberam nosso olhar curioso e promoveram o encontro das curiosidades, para que elas, juntas, pudessem se satisfazer…
Meu amigo pediu para elas jogarem capoeira, já que estavam vestidas para tal. Nesses momentos, quando uma situação perfeita se configura, sempre sinto um frio na barriga. Só que algo mudou em mim nesse tempo que tenho me dedicado a entender o que é fotografia. Percebo cada vez mais que não importa quão bela é a cena ou o quanto você está feliz em presenciá-la, a fotografia não é uma cópia fiel do momento vivido. A imagem é por ela. A beleza está na grafia que as luzes inscrevem naquele momento único. A graça de você aprender a mexer numa câmera está em escolher os modos de registro desta escrita luminosa.
Passei as mão pelas regulagens da câmeras. Cliquei.

Olhei a foto. Parecia comum. O momento não era comum… sabia que podia mais…
Tinha que ter um novo ângulo. Parei para ver toda a cena e ali, logo a direita, o sol se punha atrás dos garotos. Um contra-luz se fazia possível…
Mudei de lado. Os garotos não paravam. Queriamos que a foto saísse..
e denovo.
e denovo e denovo e denovo….
Tínhamos pressa. Agradecemos a parceria e partimos..
No caminho, parei para olhar o que mais tinha saído. Lá estava ela. Talvez não fosse a mais bonita de todas. Mas era ela. A perna do garoto bem no centro, o esforço do movimento, do nosso movimento. As mulheres atrás, na mesma posição, a sincronia. O outro garoto sereno, ali, para que a cena pudesse acontecer, estávamos ali para a cena acontecer…
Gosto quando a foto condensa. Esta podia não ser a melhor, mas ela condensava. Condensava o conjunto de sensações e sentimentos que toda uma experiência havia me causado. Condensava o Acre, as pessoas, os olhares, o cheiro, a alegria, o telecentro, o frio na barriga, a comunidade, os movimentos…
E assim foi. O que senti então? Senti o prazer de ver a bela condensação de um processo. O que é isso? não sei… mas quando bato o olho em uma foto, logo percebo. Sinto até minhas pupilas dilatarem, como numa rápida paixão. É algo muito específico, que só sinto nesses momentos….
Tentei aqui dar um caminho de compreensão dessa sensação. É isso então? Também não. O que tenho agora são memórias e é delas que falo. E daqui pra frente, a partir do encontro com esta pergunta, estarei atento e buscarei mais elementos nos efeitos de um novo encontro com uma bela foto que condensa…
um enquadramento micropolítico…
Viciei-me em uma coisa: micropolítica. Ainda na faculdade, entrei por um caminho de me lançar pelos caminhos e me molhar com qualquer pingo de afeto que respingue por onde passo. Acostumado que tava a procurar aquilo que fixa, fui forçado por um grupo que incluía a mim mesmo a ver que só há mudança. Isso doeu por um tempo…
Mas a dor passou. E ai…ah, ai tudo ficou mais nítido. O que era initeligível, incompreensível, repreensível, passa a ter contornos (móveis), torna-se mundo, ganha passe livre pra compor. Na vida passei a abrir brechas de mim mesmo. Brechas onde as luzes podiam entrar, iluminar, e, assim, criar cenas.
Percebi que as luzes que entravam eram sempre mutantes, complexas, quase nunca brancas… Em mim, formas refletiam essas luzes e se tornavam cada vez mais conhecidas, e cada vez mais reconhecidas como necessariamente dependentes das luzes que as iluminavam de fora.
Minha percepção começou a sacar que aquilo que sinto, penso, respondo, é uma imagem cuja formação depende, é inseparável, das luzes que vêm do mundo. E essas luzes nunca são as mesmas. “Plano sempre variável, sempre remanejado e recomposto pelos indivíduos e pelas coletividades”, como diz Rolnik no Livro Cartografia Sentimental.
Rolnik, que está falando principalmente a partir das produções de Guatarri e Deleuze, diz que no encontro, os corpos, em seu poder de afetar e serem afetados, se atraem ou se repelem. Dos movimentos de atração e repulsa geram-se efeitos: os corpos são tomados por uma mistura de afetos. Na micropolítica, há apenas intensidades, lista de afetos não subjetivados, determinados pelos agenciamentos que o corpo faz, e, portanto, inseparáveis de suas relações com o mundo.
Que corpos? Na fotografia, quaisquer corpos. Nessa de aprender a me misturar com o mundo e compreender o que entrava em contato a partir da leitura dos movimentos das imagens formadas na mistura do dentro com o fora, de repente re-conheci uma ferramenta incrível de poder expressar essa interação.
Com a câmera na mão, na maioria das vezes, não busco retratar a realidade. Quero formar uma imagem daquilo que me afeta, quero
dar um jeito de registrar os agenciamentos mutantes. As regras de proporções, terços, estão a serviço de conseguir expressar um contato, um movimento de sentimento. Aquilo que me conecta seja com pessoas, o que tenho franca preferência, seja com estátuas, quadros, plantas, pedras, barcos, paredes, cores, sombras…
Pelo visor, conecto minha percepção com o instrumento de registro. Aproximo, inclino, subo, desço, foco, desfoco, clareio, escureço e, quando pulsa, clico. Na enorme maioria das vezes, só vou entender depois, quando o micro se torna macro, visível aos olhos. Por isso, acredito que se me perguntarem sobre o enquadramento das minhas fotos, direi que é micropolítico, e se me pedirem alguma dica, direi que o enquadramento de uma foto é um retrato de você mesmo…
atenção e percepção
Todo encontro exige uma atenção. E o que é estar atento? Percebo em mim muitos modos de estar atento…. Às vezes percebo tudo, cada ruído, cada movimento, cada mudança de luz, cada palavra… mas quando estou assim, normalmente é muito excesso, me atrapalho. Fica difícil selecionar a melhor cena, vislumbrar significados, me posicionar, é tudo muito…
Às vezes, quero perceber muita coisa, mas não estou permeável. Aí é ainda pior. Forço, olho, escuto, mas as coisas colam na minha pele como adesivos plásticos… nada se torna alimento, nada me compõe, é tudo alheio e as nuances passam desapercebidas, fazendo graça do meu olhar nublado…

Mas, muitas vezes, e cada vez mais, me encontro em um estado de atenção quase displicente à luz branca, comum, e totalmente permissivo as impressões que as luzes mais esquisitas querem me fazer…
Neste estado de atenção, muitas vezes vago pelo que está acontecendo a espera de um encontro. Passam por mim os encontros triviais, ficam evidentes os holofotes, os tapumes, as paredes, as estruturas que a razão constrói só pra encobrir os focos de vida mais ardentes. E ai, de repente, param em mim os gestos que não se esperavam, saltam enormes os olhares que refletem a alma, desabrocham os signos que tão custosamente escondidos…
Nessas horas, o que eu mais gosto é que reajo. Muitas vezes, hoje, com a liberdade de quase não saber direito o porquê. Quando me encontro atento desta forma, a situação puxa de mim o que que está ao meu alcance… com a urgência de ser naquele exato instante. Perdido o momento, muitas vezes, o encontro já não faz mais sentido. A reação é quase uma tentativa saudosa de resgatar aquilo que não será mais….
No entanto, é quase certo que a ação que respeita a convocação será feliz. É quase certo que o retrato ficará marcado pelo colorido intenso daquilo que na cena não quis ser o objeto principal. Ganhará evidência aquilo que tentava passar imperceptível e, assim, escapou ao brilho intenso dos focos de luz, brincou com as paredes da vida real, e pôde mostrar com a clareza suficiente os detalhes mais ricos de suas nuances… emerge o surpreendente…
Quis escrever sobre como é pra mim fotografar. Mas fui percebendo que a composição do meu olhar passa pela minha percepção, que foi/é especialmente trabalhada pelas vivências clínicas do meu cotidiano… e assim saiu um texto misturado, e assim é em mim… fotografia clínica, clínica fotográfica….
Primeiro passo: a postura
Um desafio foi posto: construir uma formação em inclusão digital de âmbito nacional que integrasse diferentes formações já existentes e que conseguisse de alguma forma contemplar a diversidade de 10.000 realidades comunitárias diferentes, onde se instalariam telecentros (salas com acesso a computador e a internet gratuitos), e de 16.000 monitores diferentes que passariam por essa formação ao longo de um ano.
Algum padrão de perfil para as comunidades? Algo que vai do centro de São Paulo a comunidades kilombolas de Goiás, passando em algum ponto por comunidades indígenas do interior do Pará e assentamentos do MST no Rio Grande do Sul. E para os monitores? Jovens de 16 a 29 anos, moradores das comunidades, com escolaridade que vai de cursando o fundamental ao ensino médio completo.
Qual a organização institucional para dar conta deste desafio? Um Polo Nacional de Formação, que constrói o curso a partir das temáticas já previstas pelo governo, põe o curso em prática e Polos Regionais (um para cada região do país e mais dois estaduais para estados com um número grande de telecentros) que regionalizam/adaptam os conteúdos da formação para suas realidades locais. Ou seja, a produção fica centrada no polo nacional, que determina a metodologia que será empregada no curso e também os conteúdos que entram na formação, e repassa para os polos regionais que, cada um a sua forma, adapta o curso a sua realidade, num contato mais direto com os monitores e as instituições, chamadas iniciativas, que coordenam os telecentros. Todos os polos sob a coordenação de um colegiado de 3 Ministérios do Governo Federal. Hierarquia e papéis bem determinados.
Acontece que denominou-se essa estrutura de Rede Nacional de Formação. Portando, rede. Acontece também que dentro desta rede, as instituições que representam todos os polos são instituições que foram selecionadas por sua experiência e relevância dentro da história da inclusão digital no país e também fora dele.
Como determinar o uso de uma metodologia em um curso de formação que busque contemplar a diversidade de seus alunos que tende ao infinito, sendo que a própria rede de instituições responsáveis por implementar essa formação possui hierarquia e papéis que determinam desigualdades de representação na concepção e apropriação desta formação?

Para resolver isto, enquanto Polo Nacional, conversamos/procuramos e encontramos em nós uma postura, nosso primeiro grande passo,que nos pareceu coerente com nossas histórias de trabalho e de grupo: envolver todos na concepção desta formação e do modo de se relacionar dentro desta rede.
Caminhamos então para o segundo passo: espalhamo-nos pelo território nacional para, ao mesmo tempo, conhecer a história das pessoas envolvidas nesta rede e, principalmente, o campo de forças já existente entre elas, e também cuidar da tessitura de um novo campo de relações no qual estaríamos profundamente implicados, com a clareza de uma postura que nos parecia coerente, interessante e indispensável.
Processos paralelos e não coincidentes
Isso aconteceu há alguns dias atrás. Para a equipe com a qual trabalho no projeto de formação, esse ano tem sido um ano de muitas produções. Muitos processos correm em paralelo e precisam se concretizar em processos e produtos que deem forma as mil faces e necessidades da formação e de toda a rede que dela cuida.
Acontece que, além da constituição do rede e da formação, o que por si só demanda muitas estratégias de alinhamento em termos de discurso e, principalmente, de postura, temos viajado praticamente toda semana. Isto provoca rupturas e desencontros nos discursos e nas posturas e tem exigido mecanismos criativos de conexão e confiança entre nós para que possamos perceber estes movimentos.
No início deste ano, dois processos aconteceram simultâneamente, ambos tendo como fim um produto que seria implementado na formação e entraria no funcionamento da rede.
Um dos processos foi tocado por mim e mais uma pessoa. Ambos nos envolvemos com a produção. Pensamos, criamos, recriamos, discutimos, mostramos para alguns a nossa volta, reinventamos, e nisso fomos nos apropriando dos sentidos e das ferramentas. Nós dois.
Acontece que somos sete pessoas. Mergulhado no processo, quis terminá-lo, completá-lo para apresentá-lo a equipe e aí publicá-lo para rede. Em diferentes momentos tecia comentários sobre ele para as pessoas da equipe e elas sinalizavam: “nós discutimos isso?”, “Precisava saber disso!”, “tenho uma reunião e precisava falar disso”. Pensava eu que logo seria discutido, as pessoas iam saber. Mas diferentes de outras ações, mergulhei de maneira tão profunda, que não percebi que eu mesmo estava fazendo sombra no produto, cobrindo ele das outras pessoas. Consequência: só eu estava vendo. De alguma forma ele criou um pertencimento, mas somente a mim. A outra pessoa que esteve comigo na concepção da ideia, dado o ritmo de trabalho e também a minha postura em relação ao processo, acabou assumindo outras demandas e mesmo entre nós, aos poucos, as ideias iam se distanciando.
Isso é um problema em si? Talvez não. As vezes precisamos desse mergulho para conceber algo, estruturar. A consequência que tive foi um esforço gigantesco de provocar alinhamentos posteriores. É um problema também? Não, alinhamentos exigem esforços. No entanto, o que fui percebendo é que quanto mais eu produzia sem contar para as pessoas o que eu estava fazendo, mais difícil ficava o alinhamento posterior. E como era um processo do qual todos deveriam estar apropriados, esta apropriação aconteceu mais por conta da necessidade do que pelo fato das pessoas estarem implicadas no precesso.
Teve um momento em que isto se fez nítido pra mim. Uma outra pessoa da equipe estava tocando outro processo paralelo. Completamente diferente, mas que também dizia respeito a todos nós. Em um dado momento, ainda com as ideias rabiscadas, esta pessoa, em um dos poucos dias que nos encontramos, nos obrigou a parar tudo para ouvir as ideias que estava tendo. A sua postura e a sua fala diziam: “isto é de todos nós e todos nós temos que conhecer disto, não vou bancar isto sozinha. Vou contar o que pensei e quero a contribuição de vocês.” Um ato simples e de implicações profundas.
Acontece que trabalhamos muito bem juntos. Ela foi contando o que estava pensando e todos foram contribuindo. Aquilo nos sucitava muitas ideias. Por mais que não fosse algo dominado por todos, de cada um saia uma lembrança, uma sugestão, que ela não deixava escapar de sua caneta e seu caderninho. Ao final de uma hora, todos nós sabiamos o seu rascunho e todos tínhamos um pedaço de nós na
produção. Aquilo tornou-se realidade para todos. Não precisamos conversar mais depois para sabermos do que se tratava e, quando vimos o produto final, ele nos representava.

Fala e postura de abertura, registro e produção coerente com o que foi registrado. Coisas que sempre priorizamos em todas as nossas produções. A ocorrência destes dois processos paralelos e não coincidentes em seu modo de pensar, em sua execução e em suas consequências, provocou um choque de posturas dentro da própria equipe, trouxe à tona a incoerência que existe em nós, permitiu um olhar para nosso modo de fazer e serviu para reafirmarmos com mais convicção os cuidados que gostamos muito de ter. Sigamos nos (re)conhecendo e nos fortalecendo…
Onde está minha atenção?
Lendo agora o livro Cartografia Sentimental, de Suely Rolnik, me veio de súbito a necessidade de registrar uma experiência que é um bom retrato do que persigo. O trecho que me convocou a escrever foi: ” Paisagens psicossociais também são cartografáveis. A cartografia, nesse caso, acompanha e se faz ao mesmo tempo que o desmanchamento de certos mundos – a sua perda de sentido – e a formação de outros…Sendo tarefa do cartógrafo dar língua para afetos que pedem passagem, dele se espera basicamente que esteja mergulhado nas intensidades de seu tempo e que, atento às linguagens que encontra, devore as que lhe parecerem elementos possíveis para composição das cartografias que se fazem necessárias.”
Esses dias estive presente em uma formação de tutores do programa onde trabalho cuja intensidade do encontro eu nem sequer suspeitava. Há 7 meses estamos trabalhando na composição de um grupo para cuidar da construção de uma formação online para monitores de telecentros, com foco na ação social desse jovem em sua comunidade. Por si só já é um tema mobilizador, que chama a atenção por suas possibilidades. Quando coloca-se em escala de abrangência, fica ainda mais instigante: 16.000 mil jovens por todo Brasil.
Os tutores são pessoas que estão sendo contratadas para cuidar mais proximamente de turmas de 30 monitores dentro do ambiente virtual. Acompanhar mais de perto, questionar, tirar dúvidas, provocar encontros, oferecer repertório.
Temos trabalhado há meses pensando em formações, composição de equipe, alinhamentos, acordos, resolução coletiva de divergências, tudo no âmbito de quem produz a formação. As formações de tutores que começaram a acontecer no final do ano passado colocou mais gente na roda e nos chamou para ver as consequências das decisões que estávamos tomando.
Cada segundo dessas formações, desde a chegada, é carregado de sensações. Chegamos munidos de toda a expectativa de quem está a 7 meses trabalhando em algo, e que um dos desdobramentos deste trabalho é a constituição do trabalho destas pessoas que encontraremos. O meu olhar para eles, que estão esperando a formação começar, é um olhar que busca as respostas iniciais deles para aquele encontro. Olho como que eles estão posicionados, quem conversa com quem, tento pescar do que falam, quem já se conhece, quem tá fazendo amizade ali naquele instante. Muitas das discussões que temos previamente vão ali se materializar em falas, apresentações, dinâmicas de interação, videos, fotos, e cada reação proporciona uma re-apropriação daquilo que fazemos.
Eis que teve inicio oficial a tal da formação que citei anteriormente. Algumas falas institucionais, apresentação do programa, apresentação das pessoas que compõe a rede de formação, e algo que ia me chamando a atenção é que todos os discursos apontavam para uma paixão. Quem se punha ali de pé a falar sobre o programa, carregava na sua fala o tom da boa emoção. Emoção que tem de fato existido e que tem levado a rede de formação a estender suas reuniões e encontrar jeitos de trabalhar presencialmente com mais frequência do que o previsto, pois os encontros tem gerado relações e produções que são de uma qualidade surpreendente a todos os envolvidos.
Nessa emoção comum residiu minha atenção por muito tempo. O que estava ali sendo falado era a dedicação daqueles profissionais ao programa que estava sendo apresentado. O fio que tecia as informações apresentadas era o de um sorriso implícito, que denunciava a alegria de composição de todos que falavam e apresentavam nada menos do que um programa governamental .
Dediquei certo tempo das falas em pensamentos sobre como que essa emoção atingiria essas pessoas, qual seria o papel educativo disto, quais as consequências disto. Eis que em um intervalo, de sopetão, uma moça me pergunta sobre como garantiríamos que tudo aquilo de fato aconteceria. A sensação que tive foi a de terem encostado um gelo na minha pele e que eu não estava esperando. Acho que minha primeira reação foi de justificar, contar como as ações estavam se encadeando e as mil coerências que aquele processo tinha com tudo o que construímos. Isso não bastava, quase não importava.
Na sequência, a mesma moça diz sinceramente para o grupo todo que tem muita vontade de poder acreditar na utopia que estava sendo apresentada. Esta fala teve o peso de um choque, um duro choque de realidade que desestabiliza. Acho que por alguns minutos fui repassando esses 7 meses de trabalho, e questionando muitas das apostas que fizemos. A palavra utopia desencadeou um processo de questionamento sobre o quão consistente era aquilo que vivi, o que foi descortinando que ainda existem muitas apostas cujas as contrapartidas são muito frágeis. Em um dado momento me dei conta deste processo destrutivo. Passei a me perguntar de onde vinha aquilo, que não era meu. Isso me deu muitas dicas.
A colocação da moça dizia em muito respeito a história dela, sem dúvida. Mas não estava descontextualizada. Nós que apresentávamos, compartilhávamos lembranças, alegrias e satisfações na história comum. Mas a história com eles estava ali começando, eles não compartilhavam deste passado, mas sim das dúvidas e angústias de quem está dando um passo no escuro na construção da sua vida em um processo que ao mesmo tempo era formativo e rankeador da ordem de chamada para o trabalho.
Nem sempre as coisas são apresentadas também em suas falhas e dificuldades, na dimensão dos choques de sua construção que geram suas imperfeições e que, por assim ser, caracterizam processos humanos. Senti que ali havia um chamado para falas que trouxessem uma dimensão do trabalho menos eufórica (não que o estivéssemos sendo eufóricos por falta de informações, ou cegueira das dificuldades reais, mas sinto que muito pela expectativa do encontro, pelo excesso de vontade de dizer “vamos junto que tudo tá bom demais!”). Parei para olhar muitas das falas dentro das discussões que aconteceram ao longo do dia e vi que muito do que se discutia também vinha em um tom de euforia, que encobria a aparição de questões mais nodais.
A formação estava sob a responsabilidade direta de outras pessoas, o que dificultava bastante o nível de intervenção no andamento do processo. No segundo dia, decidi abrir-me para fazer ressoar. Abrir o campo de mostrar que as emoções, mínimas que eu pescasse em suas falas, tinham correspondência na vivência das mais diferentes instâncias do programa. O fazer diário de um programa como aquele que apresentávamos era recheado também de tristeza, desapontamento, de questionamentos, de choques, de desistências. E essas coisas compunham e não destruíam.
Isto me deixou muito mais confortável para narrar para o grupo os processos constitutivos do que apresentávamos,
contar onde tínhamos chegado a partir das escolhas que fizemos. A partir disto, muitos encontros individuais surgiram. Contatos nos quais pessoas vinham relatar suas experiências, no que elas se assemelhavam aquilo que falávamos e por onde elas gostariam de começar a pensar sua ação. Houve até uma moça que veio perguntar se poderia estudar o modo como estávamos desenhando no seu projeto de TCC de uma especialização em Educação a Distância que ela fazia (mal sabe ela do imenso investimento que ando fazendo para escrever sobre este projeto e da alegria de saber que tem mais gente querendo isso). Minha vontade era de passar mais uma semana ali só ouvindo e conversando com todos sobre suas histórias e nossas tangências.
Eis que quando parecia que eu tinha encontrado um eixo norteador, algo pelo qual me orientava na minha postura e fala, um moço e uma moça se aproximaram de mim, o rapaz olhou no meu olho e disse: Parabéns pelo trabalho de vocês, o seu entusiasmo contagia, dá vontade de mergulhar junto.. Ai, confesso que me perdi nos muitos afetos que, sem pedir passagem, transbordaram pelos meus olhos…
Princípio
Os encontros produzem efeitos em nós. Os encontros com muitos, reverberam nos muitos em nós. Escolhemos viver e trabalhar no intenso inesperado dos muitos encontros…





