Qual é o problema?

No exercício de fazer o mestrado, sinto que duvidar da questão orientadora do projeto de pesquisa é algo que pode ser considerado inerente, quase natural. Pego-me em diferentes lugares e tempos pensando se caminho por um lado ou por outro, invisto nisto ou naquilo e, às vezes, até aflito por ver que algo que era certeza me escapa de repente. Nestes movimentos todos, uma coisa não abro mão: quero investigar as ações de articulação que aconteceram na constituição da Rede de Formação do Programa Telecentros.BR. História viva, encarnada em mim, e é só por isso que quero a ela me dedicar. Só que, como faz parte de mim, sempre a vejo em movimento, o que me atrapalha um pouco. Em alguns momentos, percebo elementos nos quais gostaria de investir e, passado um tempo, outras experiências acontecem  e me conduzem a perceber outros movimentos na história do Telecentros.BR que me atraem mais. Desistindo de resistir a essas mudanças, tenho tentado aproveitá-las para conseguir entender melhor os trânsitos todos. As disciplinas da pós-graduação têm sido pontos de parada importantes para isto. Nelas, mais do que em qualquer outro lugar, sinto que ganho consistência para olhar a experiência em questão. Atualmente, estou cursando a disciplina “Micropolítica e Pesquisa-Intervenção na interface entre psicologia e educação”, ministrada por Adriana Marcondes, no Instituto de Psicologia da USP. O primeiro momento desta disciplina teve uma discussão do conceito de imanência com base no filósofo Henri Bergson, por meio dos textos “A Evolução Criadora” do próprio Bergson e “A Intuição como Método” de Gilles Deleuze sobre o Bergson. Venho aqui articular como que essa discussão tem incidido nas transformações que trazem consistência neste momento do meu processo de pesquisa. O que fica claro nos textos, e a Adriana reforçou em suas aulas, é que Bergson parte do princípio que a vida é uma energia sempre em expansão, sempre positiva. Para se expandir, há uma força, que ele chama de impulso vital, que está sempre produzindo algo novo, força de diferenciação, que faz o novo acontecer. Uma ideia que parece aparentemente simples, mas que tem consequências bastante complexas para o pensamento quando se fala de pesquisa. Deste impulso de diferenciação, coisas acabam tomando formas, tornando-se visíveis, e estas são as diferenças. Diferença é aquilo que acontece como consequência da necessidade da vida de se expandir. No entanto, o processo de diferenciação não leva tudo a mudar a todo instante. Muitas linhas-base, que já existem, permanecem. E o movimento da vida vai garantindo que o existente possa aumentar sua força, produzindo modificação naquilo que já não contribui mais para a expansão do ser. Pensando em evolução, por exemplo, quando uma couraça dura que servia para a proteção do ser impede que ele execute movimentos que atendem melhor as suas necessidades atuais, essa couraça vai deixar de existir pois a necessidade de proteção pôde dar lugar à outras necessidades que se tornaram prioritárias. Pensando em alguém que se preocupa em sempre afastar as pessoas, assim que um interesse por alguém nasce e vai se fortalecendo, esse interesse pode viabilizar ações que geram mais aproximação do que afastamento. Nestes dois exemplos, há uma grande parte que permanece, ao mesmo tempo, que há mudanças necessárias para que o ser possa se expandir. A afirmação de que a vida está sempre em expansão nos leva a olhar para o acontecimento como algo que representa um aumento de vida para aquele ser (seja ele vegetal ou animal). Isso exige maior minúcia, maior cuidado ao analisar algo. Qualquer ação, por mais estapafúrdia que possa parecer para um julgamento social, está acontecendo pois, para aquele ser ou seres, é um processo de diferenciação que visa expandir sua vida. E como analisamos as coisas em nosso dia-a-dia? Muitas vezes procuramos saber, analisar ou reconhecer algo com perguntas e afirmações do tipo: por que ele fez isso e não aquilo? Por que aquela pessoa está sendo destrutiva com ela mesma? As pessoas não querem se articular? Não seria mais bacana se todo mundo buscasse cooperar ao invés de cada um fazer do seu jeito? A perspectiva da imanência me leva a revisitar meus problemas. Para além de me perguntar se quero investigar isso ou aquilo, tenho pensado que perguntas tenho sobre esta experiência. Concordo com Deleuze quando ele afirma que “o problema tem sempre a solução que ele merece em função da maneira pela qual é colocado, das condições sob as quais é determinado como problema, dos meios e dos termos de que se dispõe para colocá-lo.” Apesar desta afirmação me paralisar às vezes com a preocupação de achar uma pergunta ideal, uma condução ideal, isso logo passa e consigo tirar proveito das dúvidas que ela me pôs no caminho de constituir um novo questionar. Deleuze, falando de Bergson, mostra o quanto muitas vezes nos perdemos em problemas que poucos elementos trazem daquilo que acontece. No exemplo do animal, pode ser que, ao perder a couraça, o animal fique mais frágil e suscetível a ataques. Se nos perguntarmos porque a evolução tornou o animal mais frágil, pode ser que fiquemos somente na leitura de que o animal deve ter uma couraça mais forte possível e não percebamos que há um ganho de maleabilidade para saciar novas necessidades de movimentação. Tenho percebido que muitas das perguntas que faço, como as que coloquei como exemplo, podem supor que coisas poderiam acontecer para além daquilo que já aconteceu. Ele poderia ter feito aquilo antes disto, ele poderia se valorizar ao invés de se depreciar, as pessoas deviam querer se juntar e não ficar isoladas. Quando se fala de articulação de redes, muitos pré-existentes me vêm a cabeça: acho mais bacana estar junto do que separado, gosto mais de coisas misturadas e não puras, é legal que as pessoas consigam se ver e conversar. Estas são também muitas das defesas dos trabalhos publicados sobre rede, como se elas fossem bacanas e acontecessem quase naturalmente por si só. Só que rede é gente. Colocar gente em contato é por tudo o que somos em contato. Ao chamar minha atenção para a expansão da vida e pôr meus problemas em análise, Bergson, Deleuze e a Adriana têm conseguido me permitir perceber esses pré-existentes, colocá-los um pouco de lado, para ser tocado por novas nuances da  força que teve o trabalho com a Rede de Formação do Telecentros.BR. Para além de seus momentos exitosos, do que foi ou do que poderia ter sido, sinto uma nova abertura para aquilo que do mundo das pessoas comuns se fez presente, como os conflitos,  distanciamentos, reaproximações, fragmentações, enfim, aquilo que faz a beleza da complexidade de ser rede e que muitas vezes, inclusive por mim, prefere-se não encarar de frente.

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