Como se aprende a ninar?

Logo que minha esposa engravidou pela primeira vez, uma nuvem de questões pairavam sobre mim onde quer que eu fosse. E dessas todas, uma delas me era particularmente intrigante: como iria ninar meu filho?

Parece simples quando você vê de fora: segura firme,  balança, balança… Troca de lado, balança, balança. Analisando tecnicamente, algo a ver com força, resistência e ritmo.

No entanto, a mim carecia intimidade com o objeto. Nunca fui dado às crianças. Desde pequeno afeito ao mundo adulto. A única experiência que tive com crianças, depois de adulto, foi um grande erro de contratação de uma ONG que achou que eu podia ser educador. Foram três meses de angústia e eu desisti logo antes que eles o fizessem.

Mas, e quando meu filho nascesse? No brincar ainda me virava, mas ninar me tirava o sono. Que faria eu com aquele ser que não entenderia nenhum tipo de comunicação a mim possível?  Até que um dia, encontrei com o pequeno. Logo após o parto, passou pela UTI do hospital devido a probleminha no nascimento e foi ali que o ninar deu indícios de urgência.

Sufoco. Na UTI, pegava-o e tinha a impressão que a incubadora, mesmo com todos os fios a ele ligados, ainda era mais confortável que o meu colo. Era como tentar encaixar uma peça quadrada num espaço feito para uma redonda.

Tinha com ele encontros a cada três horas. E ele, chorava. E eu, travava. Balançava com desengonço. Em um dado momento me veio um cantar. Como veio foi, já que não pertencia ao que sentia que era adequado – o cancioneiro infantil. Movimentos desconexos com um samba mal entoado haveria de traumatizar o rebento.

Minha sorte é que minha raiva da UTI do hospital me fez acreditar que algo no meu contato seria mais interessante que aquela situação. Insisti.

E não é que aos poucos fui percebendo que meu redondo não era tão redondo assim? E nem o quadrado dele era tão cheio de cantos…

Aos pouco, fomos encaixando. Quanto mais encaixe, mais encaixe. Entre nos dois, um ritmo. Mas teve que nascer sem que eu percebesse – porque se dependesse de mim,  não deixaria ele surgir nem em um século de vida.

E quando vi, não era samba, não era música infantil, não era MPB ou rock. Era uma fuga de ar que fazia minhas cordas vocais vibrarem num ritmo irreconhecível, até então inexistente. O som visceral da minha paternidade.

Deixei que ele saísse. Aos poucos, fui percebendo que havia modulações, mais agudas, mais graves, e que muito tinham a ver com a intensidade do ritmo do meu próprio coração.

E então percebi que percebia meu coração. Percebi que percebia também minhas juntas que, estafadas de movimentos repetitivos, gritavam estalos e muitas vezes arruinavam horas de balanço, assustando o doce e leve sono do meu filho. Quanto mais me percebia, mais me encontrava com ele. Quanto mais eu me reconhecia, mais ele me entendia.

Às vezes eu me preparava para o encontro com ele. Dava-me conta que estava ansioso, que o dia não havia sido bom. Meu coração acelerava, meu desengonço e desritmo voltavam. Era então momento de entregar à mãe, sentar, limpar a mente, me reencontrar e reencontrá-lo.

E como nem sempre isso era possível, ele também me mostrou ser possível tolerar minhas imperfeições. Nem sempre precisava ser o mais tranquilo e nem o mais ciente de meu estado no momento, mas precisava ser a dois. Ninar era nosso momento juntos. De juntos, mergulharmos na paz de cada um.

E foi assim que descobri a resposta para aquela questão tão intrigante: ninar nada mais é que um momento singular de conhecer sua paz a dois.

2 comentários em “Como se aprende a ninar?

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