Pilulas da paternidade: “papai, eu escolhi o Corinthians!”

‪#‎DedinDeProsa‬
– papai, quem torce pro São Paulo?
– eu, sua mamãe, o tio Lucas, o tio Marcos, o tio Daniel, o tio Ivo..
– é quem torce pro Corinthians?
– seu vô Irany, seu vô Sérgio, o tio André, a tia Cássia…
– hummmm
– ou você torce pro São Paulo ou pro Corinthians, filho…
– papai, eu escolhi o Corinthians!
Francisco, 2 anos e 11 meses…

Era uma fria manhã de inverno, antes das 8 da manhã. Névoa em São Paulo e o caminho era o da escola. Eu ainda me recuperava da sempre presente sensação de “corre que não vai dar tempo” que ter dois filhos e prepará-los para a escola nos trás todos os dias. Trânsito levemente parado, tempo o suficiente para ir colocando a cabeça em ordem e organizando o dia que se seguiria pós “meninos na escola”. E, no tempo de um de repente, no meio da enumeração das pautas da reunião próxima, vem a frase do banco de trás: papai, eu escolhi o Corinthians.

A conversa não era nova, o tom sim. Não havia provocação ao meu sentimento tricolor; somente a constatação de uma escolha. Era a primeira escolha “definitiva” que meu filho fazia. Não que ainda o seja de fato, muita água vai rolar nesse assunto. Mas foi a primeira vez que o vi afirmar o desejo de um vir-a-ser – e justo nessa área, que na nossa cultura brasileira se cristaliza e te marca para toda a vida.

Meu primeiro ímpeto foi: como revoga isso? Como faço pra dissuadí-lo dessa escolha? A coisa piorou quando coloquei o #DedinDeProsa no Facebook e vi a comoção das pessoas a favor ou contra. Inúmeras dicas daquilo que eu queria: leva no jogo, põe a camisa, não perde esse sãopaulino! No Whatsapp, sarro dos corintianos mais chegados e desespero das parentes tricolores. Um dia intenso de contatos futebolísticos fervorosos.

Um sentimento de derrota assolou-me pelo infinito que durou aquele dia. Sensação de 3X0 contra nos primeiros 15 minutos. Mas, existe jogo perdido? Quando cheguei em casa naquela noite, a raça da busca pelo resultado tomou conta de mim. Disse: “filho, hoje vamos dormir com a camisa do São Paulo”. Era exemplo que ele precisava? Então ele teria, nem que eu precisasse vestir a camisa todo dia. Dei banho no garoto e fui trocá-lo com a devida vestimenta da transformação. Pijama na mão, era a vez da honrosa camisa tricolor – presente tão orgulhoso da avó. Procura daqui, procura dali. Cade a camisa sãopaulina do garoto? Com algum custo, encontrei: no fundo, do lado direito, na terceira gaveta. Atrás dos gorros e das luvas.

Garoto devidamente paramentado, era a minha vez: “papai vai contar a história vestido de tricolor também!”. Mas por qual armário começaria a procurar? A busca não pareceria longa se nos animássemos com nosso glorioso hino: “Ó tricolor/Clube bem amado/As tuas glórias/ Vêm do passado!!!/ São teus…. são teus…” são teus o quê mesmo? Era preciso reconhecer, a minha sãopaulinidade falhara.

Na última vez que assisti a um jogo do São Paulo inteiro o pequeno nem havia nascido. E foi sentado em um bar, onde não me foi dada a chance de mudar de canal. Não tenho a menor paciência para futebol, nunca tive. E se não era contra o Corinthians, contra o que eu estava lutando? Caçando nas minhas entranhas, descubro o que eu já sabia: era a primeira vez que o meu filho dizia “papai, sou diferente de você”.

A sensação de derrota sumiu. O que passou a tomar conta de mim foi análogo aquele sentimento que se tem quando alguém tropeça no meio de uma multidão, cai de joelho, levanta, sai andando firme, reto, sem cruzar o olhar com ninguém. Sempre defendi tanto a diversidade e me pego nessa cilada? êta tristeza….

Mas e se não tivesse me pego nessa cilada? Quantos momentos e vidas acontecem sem se dar conta das diferenças? Se dizem que o bebê não sabe onde termina ele e começa os pais, a reciproca é quase totalmente verdadeira. Só falha em um ponto: nessa primeiríssima infância, a fantasia do pai é que o filho só é/será a extensão do melhor que você julga existir em você.

É provável que logo a diferença nem se ponha mais como questão. Assim como foi o drama da decisão pela chupeta ou não, as surpresas e risadas nas primeiras palavras, a turbulência infinita do desfralde – o tempo já os tornou simples anedotas. Uma das maiores graças desse inicio da paternidade é justamente a lente de aumento que se põe entre você e qualquer micro-acontecimento na vida daquele serzinho tão recente no mundo. “papai, eu escolhi o Corinthians!” foi, por um dia, como um Maracanã na minha frente.

Agora, no futebol, tenho uma torcida verdadeira: que ele leve essa escolha adiante. Quem sabe assim, vez ou outra no futuro, ao vê-lo alvinegro fervoroso na frente da TV,  possa me lembrar dessa oportunidade de descobrir no seu Corinthians o genuíno Francisco.

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