Parto pra pai

Assim que demos entrada no hospital para o parto do nosso segundo filho, ouvi a seguinte frase: “ah! O senhor vai assistir ao parto?” Por fora, um sorriso amarelo,  por dentro, o incômodo: que lugar é esse reservado ao homem  para o momento de nascimento do seu filho?

Li muita coisa antes do nascimento do nosso primogênito. Textos sobre o parto natural (que foi a escolha da minha mulher), sobre o protagonismo da mulher no próprio parto, sobre os cuidados contra a violência obstétrica. Já sobre o papel do pai, sempre a mesma coisa: seja parceiro, olhe no olho, faça massagens. Dicas interessantes mas, olhando hoje, percebo que na literatura ou nas conversas que tive à época, a presença do pai me foi apresentada como como adendo muito importante no parto. um adendo.

Perspectiva compreensível, pois todos os livros que encontrei foram escritos por mulheres e a luta ali é outra e justa. Todos os pais com quem conversei, no máximo, tinham cumprido muito bem esse papel. Vestido dessa expectativa, começaram as primeiras contrações, vesti meu papel de adendo e lá fui eu fazer massagens, preparar chás, contar o tempo das contrações, ligar para a doula, dirigir até o hospital, preencher papelada.

E ai, 14 horas depois do início das contrações, a médica chegou ao hospital. Mais tranquilo, tirei um cochilo de 1 hora – havíamos cruzado uma noite na batalha e a dilatação não passava de três dedos. Acordei e reparei que tudo o que a médica fazia era ajudar minha esposa a gritar – gritos que ainda não conseguia dar. Aproximei-me. A médica afastou-se, sentou no sofá no fundo da sala, fechou os olhos e trançou as pernas em posição de lotus. O que era aquilo? Suei frio. Afinal não seria ela que assumiria tudo e ajudaria minha mulher protagonista a dar à luz nosso primeiro filho em um belo e exemplar parto ativo? Eu só queria tirar boas fotos.

processo-1-50.jpgNa ausência ativa da médica, dei a mão para a minha esposa e continuei
imitando o que a médica estava fazendo. Inspirando, expirando, gritando. Em alguns momentos sintonia, em outros estranheza. Foram duas horas assim. Tempo demais. Fui tomado por uma raiva e tentando resgatá-la do além em que parecia estar, perguntei para minha esposa: será que o bebê está bem? Ainda de olhos fechados, pernas em lotus, o mutismo foi rompido: deixe que do bebê eu cuido. Simples. Grave. Seco. Ela estava ali o tempo todo. Eu talvez não.

Parei para olhar a Carol. Ela precisava muito de mim, muito mais do que conseguia dar. Deslocado do lugar de adendo, pude sentir toda a insegurança que um parto pode lhe proporcionar. Entrei em uma montanha russa sem o cinto de segurança.

Admirei a médica. Agradeci internamente a oportunidade única. Fui tomado pela esperança do rumo certo. Então, 26 horas depois das primeiras contrações, ela chamou a Carol e disse: ou você vai embora para casa porque ainda não entrou em trabalho de parto, ou vamos ter que induzir.

Como não estávamos em trabalho de parto? 26 horas, uma noite em claro, dores, medos, gritos? O que era trabalho de parto então? Como assim induzir? E o trabalho de parto exemplar, natural? Tive muita raiva, muita mesmo. Quis que ela saísse da cena. De novo, era ela que desmontava a cena. Assumimos, finalmente, um caminho. Que viesse a ocitocina.

Com a ocitocina, a dilatação tão adiada. Com a dilatação, a dor tão desconhecida. contrações a cada um minuto. Com as contrações estúpidas, crise no ciático. Ciclos de 60 segundos tomados por gritos de contração e, no intervalo, gritos de dor lombar. A cada grito, uma gilete descarnava meu coração. Pela dor, uni-me a minha esposa. Foram mais duas horas. Ela no chuveiro e eu indo e voltando para fora do banheiro. Chorei como nunca e nunca na frente dela – minha masculinidade curricular não me permitiu “tal fraqueza”. uma pena. Tudo o que uma mulher precisa nessa hora é que seu companheiro esteja pleno nas suas emoções. Não precisa estar seguro, mas você precisa estar conectado ao que sente. Mas não pode desaparecer nelas, você precisa estar ali, junto. Mais com você para estar mais com ela.

Ficou tudo muito insuportável. Veio a anestesia. Com cuidado, os médicos conseguiram apenas a analgesia. Em minutos, minha esposa estava dançando ao som de um celular amplificado por um repositório cirúrgico de inox. Teve início a expulsão. Um fim de 4 horas.

Tudo parecia mais controlado. Minha esposa sorria, dançava, fazia força. era a Carol que eu conhecia. Gritava e gritava. O neném coroou e o vimos pela primeira vez. Fiz inúmeras fotos. Nunca havia sido tão apaixonado pela minha esposa, que estava ali trazendo nosso filho à luz depois de tanta batalha.

processo-1-108.jpgE ele saiu. caiu como um boneco na mesa. Inerte.cordão enrolado no
pescoço. muito mecônio. Ele não reagiu. não respirou. A vida ainda não era dele. Despenquei do mais alto onde pude chegar na vida.

Tesoura, pediatra aflita. “massagem, massagem. traz pra mesa”. Por 10 segundos, tudo deu errado. Culpa. muita culpa. Não devia ter confiado. loucura. Esqueci da minha esposa. Esqueci de mim. Quis esquecer de tudo. Todos tinham razão. Fomos irresponsáveis. a cesária era a melhor opção.

E, enfim, o respiro. O leve choro. Fui ao chão. Um curto circuito. Todos os canais da minha cabeça se cruzaram. Nada, nenhuma estrutura, nenhuma caixinha se manteve intacta. Eu era só mistura. Nem os limites entre a vida e a morte se mostravam.

Veio o bebê. embrulhado. respirando, mexendo. A vida lhe tomara para si. Francisco. A médica me ofereceu. De novo, a masculinidade curricular: não sei se eu sei pegar. Ela: é seu filho. Escapou-me a chance do não. Peguei. O encontrei. Me encontrei. Conheci a mãe do meu filho.

1 ano e 10 meses depois: “o senhor vai assistir ao parto?” Desta vez era Caetano que irrompia. Peguei a roupa, fui para a sala. Era o mesmo hospital e o caminho ainda me era fresco. Era madrugada de novo, mas dessa vez as coisas eram diferentes. Os pais já haviam nascido.

Na sala, Carol e eu. Nada de doula. A mesma médica estava a caminho. demorou a chegar. Talvez confiasse nos efeitos do trabalho que fez no primeiro parto comigo. E quando chegou, um breve oi para a Carol, um rápido cardiotoco e: gente, está tudo bem, eu vou deitar um pouquinho. Nada de meditação, pernas em lótus. Ela simplesmente deitou, em posição de cochilo. Mas dessa vez, eu estava inteiro ali. E sabia que ela também.

Minha esposa ficou na banheira quase o tempo todo. Não havia outro lugar no mundo que não ao lado dela, cruzando olhares e dizendo sem abrir a boca: você vai conseguir.

E o cruzar o olhar foi se tornando cada vez mais raro. ela foi se transformando. 1 ano e 10 meses depois, nós finalmente entrávamos em trabalho de parto. Naquele estágio nós nunca havíamos chegado.

Minha esposa foi entrando por um caminho completamente desconhecido. respiração ofegante, socos na banheira. De repente, uma ressalva: Gu, acho que não vai dar, não vou conseguir. De novo, a voz do além: Carol, nem pense nisso. Era a médica pressentindo a desconexão com o fluxo. Endossei: Carol, força,tá rolando. E ela foi. sem olhar para a trás.

Perdi o contato com ela. Na verdade, perdi o contato com
IMG_3555 a Carol que eu conhecia. Seu rosto não era mais o mesmo. Seus movimentos me eram desconhecidos. Não sabia que o corpo humano era capaz de tamanha força. Na minha frente não havia mais Carol. Ela se tornara um processo de parir.

Eramos Carol, eu e a médica. Nem a pediatra chegara. De repente um sinal: Carol, tá saindo. Se o primeiro parto foi marcado por horas, este foi marcado por de repentes. Não tomei conhecimento do relógio. Muito menos da câmera fotográfica.

Minha esposa na banheira. A médica e eu do lado de fora. Próximos. Juntos. Carol se desequilibrava na banqueta de parto a cada contração, a cada minuto. Escuto: tira os sapatos. Percebo que metade de mim já está debaixo d’água. Entro de vez, tiro a banqueta. Viro a banqueta. Desequilibrar atrapalhava o fluxo e cuidar disso era tudo isso que eu deveria fazer.

Ambos de cócoras. Parimos. Dessa hora, só lembro da força em minhas mãos. Não procurei meu filho, não lembro da cara da médica, não procurei os olhos da Carol. Lembro da tensão muscular, da força que fiz segurando-a, lutando para que ela pudesse ser só o parir.

Caetano saiu. Boiou. A médica segurou, tirou da água. Ele resmungou. Minha esposa o segurou. Eu a segurava. Ser banqueta era muito mais que ser o adendo. Ser banqueta era muito mais próprio. Era a sustentação necessária.

IMG_3601A médica pegou a câmera. Tirou fotos de nós dois atônitos na banheira.
Nosso filho havia nasci
do. Fomos aos poucos nos retomando. E ele ali, ligado a nós pelo cordão umbilical. Nele, vida dela e vida dele. vida nossa.

Descubro que o parto não é cirurgia. Não é assepsia. Não é espetáculo. Parto é o mínimo. é sentir a pureza do que há de mais básico em nós: a vida.  e é passagem. do bebê para fora, do casal para pais. Passagem que precisa ser vivida, atravessada e curtida no arrastar de um longo caminho. que não começa na contração e não termina na expulsão.

Não dá pra ser adendo. este papel é dos profissionais. O parto é do casal, e @ companheir@ precisa estar presente, conectad@, emocionad@, sendo a mais forte e delicada base que puder.

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7 comentários em “Parto pra pai

  1. GU, me emocionei muito ao ler o parto visto por você! Que belo, que difícil, que delicado, que sofrido.
    obrigada por compartilhar isso com o mundo. Pra nós, futuros e sonhadores pais, fica a admiração e a certeza de que é possível viver um parto à dois.

  2. Nossa que relato.lindo estou perto de parir tbn depois desse texto tenho mais vobtade que venha normal obrigada por dividir com agente sua experiencia

  3. Ainda não sou mãe e só consigo dizer uma coisa: esse texto é a coisa mais linda e profunda que já li.Chorei muito lendo o relato. Parabéns pelo pai tão presente e sensível.

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