Conchas e pontes

‪#‎DedinDeProsa‬
– veeeeeeeeem Francisco!
– tô indo papai. Mas eu faço do meu jeito. Eu pego conchas no caminho…
Francisco 3 anos e 3 meses..

Quando ele mergulha em alguma coisa, parece que ele vira essa coisa. E ele mergulha em qualquer coisa. seja uma brincadeira elaborada, cheia de desafios. seja observar uma aranha tecendo sua morada. O mundo à sua volta parece ficar todo nublado pelo tempo do encontro, o tempo do ele-coisa. Findo isto, ele desmergulha. Na emersão, conta de um mundo que só quem vê pelos poros é capaz de enxergar.

Tem gente que anda meio surdo, disse a professora. Como se conversa com alguém que ouve mal? No ritmo do relógio do cotidiano, para tentar fazê-lo vir à tona mais depressa. pra chamar seu foco. Comecei a falar cada vez mais alto.

E funcionava. Assustado, desmergulhado, ele me olhava. pronto. agilizava.

Mas é quase biológico. quanto mais alto o som, mais surdo se fica. Aos poucos perfurei o tímpano da sua atenção. O ele-mundo voltou à prioridade. E a rotina foi dasagilizada novamente.

foi automático. Se a altura já não funcionava, mudei o timbre. O grave treme os ossos, não precisa de audição. A rispidez passou a ditar o ritmo.

Francisco,  desce logo!  Filho termina de comer! Filho, a gente precisa sair! Filho, desliga e dorme! Com o tremor da minha voz, quebravam-se uma a uma as tão preciosas conchas delicadamente encontradas pelos seus poros.

Ele podia ter parado de me ouvir de novo. com certeza teria sido mais fácil. Ao invés, percebeu que o tremor era efetivo. Sem pestanejar, pôs em prática. empregou-lhe como se fosse seu. primeiro com o irmão. depois com a mãe. comigo. com qualquer pessoa na rua. Ele mergulhou no esbravejar.

E eu, que só queria que ele desmergulhasse. me olhasse. aos poucos fui me ferindo nesses olhos de espelho que não se desviavam de mim. O tempo todo. com qualquer um. Sempre encarado pelo eco da minha gravidade.

Ainda assim, tentei contê-lo. Broncas no bravo. Era nítido que eu precisava parar. Já não o negava. mas o hábito incrusta. areia movediça. Voltarmos ao sensível parecia fora de governo.

.

Um dia, tentei calar-me com brincar. Esforcei-me em construir trilhos de trem. casinhas. pontes. ele não se aguentava. devastava. tapas. chutes. Nenhum tijolo de pé.

Um novo rompante. dessa vez, quase um silêncio. Filho, o papai tem gritado muito com você. e eu vejo que você tem gritado muito com as pessoas. Vamos tentar uma coisa? O papai não vai mais gritar com você e você tenta não gritar mais com as pessoas?  – Uma tentativa de sobreviver nos escombros da nossa sala.

Poros. Ele mergulhou no meu colo. puxou meus braços e se abraçou em mim. Ele-eu.

Seguimos vigilantes. não podemos voltar a gritar, nos avisamos de vez em quando. Ele nem tão desmergulhável. eu nem tanto urgente. Cuidando das preciosas pontes que construímos todos os dias.

2 comentários em “Conchas e pontes

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