quando os corpos deixam de ser…

00:05. ele nasceu.
2:30. fomos para o quarto.
6:30 o telefone toca:

– seu filho está na UTI.
– O quê aconteceu?
– suspeita de infecção. Já entramos com antibióticos. Vamos investigar. Ele vai ter que ficar ao menos 15 dias internado.
Aquela altura, meu mundo ainda não havia se refeito. A intensidade dos últimos 1.jpgacontecimentos havia rasgado tudo o que eu entendia por vida. A volta de Francisco para nós era a minha esperança de reconstruir de novo o mundo inteiro.
Minha nova vida, nem bem havia irrompido, estava em risco.
Fui reconhecê-lo. Uma caixa acrílica. Do seu corpo saiam mais fios do que meu olhos
marejados conseguiam contar.

Alto índice de uma proteína no sangue que não baixou depois de algumas horas do parto, foi a explicação. – Essa proteína pode ser a primeira reação a uma infecção. Não podemos correr riscos. O protocolo determina a internação e o antibiótico.

O parto. só podia ter sido o parto. Essa era a conta que teríamos que pagar.

– Pode amamentar?

– Não precisa. Já demos complemento. Você quer amamentar? Pode não ser bom pra ele. Não sabemos o quê ele tem.

– eu quero.

– volta daqui 3 horas.

Ainda bem que o peito era dela. se fosse meu, talvez ele não tivesse mamado mais. Na ânsia de se reconectar com ele, ela provocou a primeira trinca no acrílico.

– ele não está pegando.

– você não está fazendo certo.

Uma mão pegou no peito dela com toque de açougue. Ainda bem que o peito era dela. se fosse meu, talvez eu tivesse derrubado a mão que me tocasse daquele jeito.

Uma mãe assustada. Um bebê entrelaçado em fios. Uma enfermagem que aperta peitos como se não fossem de alguém. Não havia morada para o amamentar.

– você não pode ficar aqui. Só um acompanhante.

Antes de sair da UTI, ainda ouço o recado para minha esposa: – ele ficou agitado neste tempo que vocês estavam fora. Demos um pouco de glicose. talvez ele não esteja com fome.

E os recados vinham de todas as partes: eles estão fazendo o melhor. vocês estão em um dos melhores hospitais de São Paulo. Ainda bem que estão cuidando. Não havia quem questionasse o cuidadoso protocolo.

Foi o parto. foram muitas horas. foram muitos riscos. agora vão ter que lidar com as consequências. Esperamos que a irresponsabilidade de vocês não gere nada grave para ele. Não havia quem defendesse o nosso processo, nem mesmo a gente.

Buscamos apoio em quem esteve com a gente: – essa proteína é gerada em partos naturais, por conta do stress. O protocolo não contempla esse tipo de parto. Vocês precisam acampar na UTI, senão não conseguirão amamentá – lo, disse a pediatra do parto.2

Ela não apalpou nossa dor como se não fosse de alguém. Escutamos quem escutou a gente
e decidimos não abandonar nosso filho nas mãos de quem não nos recebe. Montamos um esquema: amamentação, 1 hora sozinho, 2 horas com o pai, amamentação. Seria assim, das 6 a 24:00, enquanto ele estivesse sob o protocolo. Ficamos em hotel do lado do hospital para não voltar pro nosso ninho vazio.

No meu primeiro plantão, mais um recado da enfermagem:

– você vai ficar aqui? mas não tem onde você ficar! Só essa cadeira de amamentação.

(de alumínio, sem acolchoamento)

– fico em pé.

– você vai ter que sair quando uma mãe vier amamentar.

– saio e volto.

– imagine só se todos os pais resolverem ficar aqui…

Na mesma sala havia 9 caixas. Na maioria, bebês que não tinham 1 kg. Questões diversas, inclusive de infecções sérias. Ela tinha muitos problemas pra gerenciar. Não parava um só instante. Eram riscos de vida eminentes que o protocolo tentava proteger com tantos procedimentos que ela não conseguia olhar para mim. Só quando eu incomodava.

E na ânsia de buscar a razão da sua existência, o protocolo conseguiu em muito pouco tempo fazer ainda mais furos do que fios no meu menino.

e nada. nada. o acrílico não protegia nenhuma doença. No terceiro dia fomos falar com a médica.

– Dra., somos o pai do Francisco. Não apareceu nada nos exames. Ele está tomando o antibiótico somente pelo tempo que tem que ser tomado. Não pode ir para semi-intensiva? Um quarto? Algum lugar em nossa companhia…3

– O bebê apresentou uma alteração de uma proteína que pode indicar uma infecção grave e estamos tratando essa possível infecção, enquanto investigamos o que é.

– sabemos.

– qual o sexo da criança mesmo?

Uma doença sem corpo. Sem corpo não há toque, cheiro, dengo. não-corpos não mamam. não-corpos não amam.

12 dias. 1 hora sozinho, 2 horas com o pai, amamentação. 6:00-00:00.

– vocês são os pais que não saem daqui, né? Os pais bravos, não é? O protocolo recomenda 15 dias. Mas como vocês parecem atenciosos, vamos dar alta.

a não-doença foi eliminada. seu nome descadastrado. E finalmente Francisco ganhou o mundo.

Um comentário em “quando os corpos deixam de ser…

  1. Amei o texto como enfermeira vejo realmente o que acontece hoje ota protocolo,sistema,e a humanização foi para o ralo abaixo,na minha vida profissional era uma das coisas que mais discutia com minha equipe,faça diferente.

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