Pílulas da paternidade: Vira homem, menino!

Certo dia, ouvi o grito de um senhor na rua: vira homem, menino! Deixa de frescura!

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Foto tirada por Francisco, com 3 anos e 9 meses…

O rapazinho em questão, com cerca de 9 anos, estava amedrontado em uma ladeira com uma bicicleta. E, pedindo ajuda ao pai para entregar-se a esta aventura, ouviu o fatídico grito do senhor que se encontrava sentado na garagem com o barrigão de fora, a bermuda apertada e a cerveja na mão.

Eu, que me encontrava ajeitando meu primogênito com cerca de 6 meses na cadeira do carro, percorri uma longa trilha de julgamentos na minha cabeça, desde o sofrimento desta criança em sua casa até a ignorância homofóbica daquele macho vestido a caráter.

Hoje, após 4 anos, já perdi as contas de quantas vezes tive que trancar essa frase entre os dentes. E tenho dúvidas se ela já não escapuliu, dada a naturalidade da sua emergência em algumas ocasiões.

Não adiantou toda a psicologia da aprendizagem, a sociologia, a antropologia, a psicologia social. nem mesmo Paulo Freire. Nada disso extinguiu a formação machista cultivada em mim desde o berço.

E ela está aí, a me incomodar grosseiramente. como é de sua natureza.

No geral ela não aparece. Combati-a em tantas esferas e, com tanta força e terapia, que sua aparição no cotidiano não passa de pequenos comentários infelizes sem grandes constrangimentos.

Qual, então, não foi minha surpresa ao descobri-la guardada, forte como uma energia atômica, a espreitar a sua oportunidade mais vital: reproduzir-se em outrem. E é impressionante como ela sabe escolher bem suas vítimas.

Meu filho mais velho é extremamente sensível – em todos os sentidos. Quando bebê, acordava com um simples estalo do meu joelho. Com 2 anos chorava de empatia ao ver o Pinóquio preso em uma jaula. Indigna-se com a ostensiva policial nas ruas desde os recém completos três anos. Consegue perceber mudanças sutis de humor nas nossas feições. Identifica o cheiro de frutas com mais de 20 metros de distância. Vê um fio de cabelo no meio de um chão cinza. Percepção e porosidade pura.

E esse mesmo dom que o faz ter ideias incríveis desde suas primeiras palavras, também o faz  sofrer. Não deve ser fácil ter tão poucos filtros. Ser invadido por cores, cheiros, sentimentos, sensações dos outros e dele o tempo todo.

E, em muitos momentos, ele pede proteção. De todo tipo. Às vezes, quer pôr mais de uma camiseta. Quer muito colo que o envolva várias vezes por dia. Pede companhia o tempo todo. Incomoda-se muito quando um ralado destrói parte da sua capa protetora e sempre – sempre mesmo – tenta refazer-se com um bandaid.

Em muitos destes momentos sou puro acolhimento. Todavia, quando ele não quer sentar na grama porque esta o pinica ou, então, pede uma almofada para sentar em um banco duro ou, ainda, quer lavar suas mãos ao encostar na terra, visto instantaneamente a camisa do meu colega pai citado acima. A primeira reação interna parece intencionar a cauterização dessa carne viva – como quem quer marcar o símbolo da insensibilidade com um ferro quente na pele de seu novinho.

Quando o machismo se manifesta e oprime alguém a olhos nus, ele há muito já fez a sua primeira vítima: a sensibilidade daquele que habita.

É difícil perceber. Se percebo, é difícil controlar. Se controlo, chego na fase em que estou travado: ofertar ou apoiá-los na busca de caminhos para que exercitem-se sensíveis e consigam viver com tranquilidade uma realidade repleta de brilhos, cheiros, toques e amores que eu nunca conseguirei nem supor existência tamanha a queloide que me cobre.

Preciso me deseducar como menino para não lhes tolher as infinitas possibilidades de serem pessoas mais interessantes e complexas que as suas sensibilidades, medos e fraquezas os trazem. É uma guerra. Algumas batalhas vencidas, algumas perdidas. Vou aqui dando notícias de quem não pretende entregar os pontos tão fácil para essa visão adoecida da masculinidade.

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