pílulas da paternidade: des-olhares

– você não vai tirar a câmera dele?10492171_864289233581300_6226048434038114349_n

Foi o que eu ouvi quando ele apareceu assim na cozinha. Por um descuido, a câmera deixada por sobre a mesa de jantar vestiu-lhe a face.

Sem saber o que fazia, des-tirei a câmera da criança. Talvez por curiosidade. Talvez por orgulho do espelho. Já não sei precisar. Só sei que deixei-o testar.

Em poucos momentos o botão era desapertado. Rapidamente notei aí o primeiro erro: ele não sabia o que era importante para fotografar. “– tira foto da mamãe! tira foto do papai! Tira foto da Canela!” Tentei lhe governar o olhar. Sem sucesso, a máquina registrou piso, geladeira, armário, em borrões de movimentos ininterruptos.

Desde então, sempre que a câmera aparece, também vem o pedido:

– papai, posso tirar foto?

Nunca me pediu o celular – que uso com muito mais constância para tal atividade. No máximo pede para que eu use o celular para registrar o quê está fazendo. Uma quase-selfie. Um registro corriqueiro. Não é isso que a câmera faz. Ou melhor, não era isso que ele me via fazendo com ela.

Aos poucos, Francisco foi vestindo a câmera em diferentes situações e lugares.

Certa vez, em um centro budista, ouvimos:

– se cair, o prejuízo vai ser grande – disse um marido.

– ele deve tirar fotos melhor do que você. – rebateu-lhe sua esposa. Talvez reconhecendo que há prejuízos maiores que os financeiros quando os cálculos estão no controle.

No mesmo dia, Francisco me interpela orgulhoso de uma de suas obras:

– papai, olha! uma pedra no meio da grama!

A essa altura, o botão da câmera trabalhava intensamente, mas não tão initerruptamente quanto há 12 meses atrás. Todavia, indignava-me como em um lugar tão cheio de estátuas gigantescas, com detalhes e mais detalhes arquitetônicos coloridos e belíssimos, ele conseguia tirar foto de entulho, formiga. Pedra no meio da grama! Proferi, então, impaciente, o embrião deste texto:

– filho, tenta tirar foto de uma coisa bonita!

Foi como expelir uma pedra do rim. Expulsar de si algo que se acumulou porque você consumiu coisas que não lhe são digeríveis. não fazem bem. E a saída arde, porque te lembra que aquilo não é próprio ao organismo e não pode morar mais nele.

Incomodado por estar desvendo o valor da sua arte, passei a reparar no seu caminhar. Não havia nada de aleatório no seu fotografar. Simplesmente a sua capacidade de se encantar era muito maior que a minha. Enquanto o tempo fez a formiga do centro budista ser para mim apenas mais uma formiga. A formiga do centro budista parecia ser a-formiga-das-férias-só-com-os-pais-e-o-irmão-num-lugar-que-parece-mágico-com-gente-muito-diferente-e-umas-estátuas-enormes-que-dão-medo-mas-são-encantadoras-que-nunca-vi-antes.

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foto de Francisco, com 4 anos e 4 meses.

Para entender a fotografia de Francisco de 4 anos não dá pra usar os filtros cultivados há 33 anos. Com o tempo, vamos consolidando quadros de referências, de compreensões, que nos tiram o ineditismo do encontro com as coisas, a não ser que elas sejam muito fora do que estamos acostumados – como somente me era a arquitetura budista.

Pouco antes dessa viagem, minha analista havia me perguntado

– e a fotografia, Gustavo? – respondi convictamente que estava sem tempo.

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foto de Francisco, com 4 anos e 4 meses.

Percebi na viagem que, na verdade, a fotografia estava encerrada em meu cotidiano. Encarcerada na insensibilidade do en-rotinar-se. Quantas fotos perdia no meu dia-a-dia por não conseguir enxergar as gramas e as pedras. A fotografia da criança é uma oportunidade de perceber como a todo instante pode-se encontrar algo incrível, inédito, mesmo que seja no seu quarto.

 

 

Francisco me ensinou que há pelo menos duas potências neste encontro do adulto com os pequenos na arte de fotografar: o adulto que limitar-se a trazer técnicas pode ajudar as crianças a mostrarem com maior complexidade as suas próprias realidades; e as crianças, ao se revelarem nas imagens, podem nos ajudar a des-olhar para in-descobrir um mundo novo.

 

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